Geral

Não quero lhe falar, meu grande amor.

 
  Eu não faço a menor ideia de quando ouvi o Belchior pela primeira vez. Tampouco qual música teria sido. A menor ideia. 

Mas não estou interessada em nenhuma teoria.

Eu era muito, muito pequena e aquela voz tem como uma presença inconsciente em mim. Talvez tenha escutado ele ainda na barriga da minha mãe. Gestada nascida e criada no Ceará isso não seria impossível. 

Não importa, isso não faz a menor diferença. 

O fato é que ele está presente desde sempre. 

Sempre. 

Sua voz, seus comandos e inquietudes radicais me seguem de uma forma que não sei se esses versos combinam comigo ou me moldaram. Se são parecidos comigo ou determinaram quem eu sou. 

Não me interessa, repito.

Amar e mudar as coisas me interessa mais. 

Minha sede de viver, meu coração selvagem, o medo, medo, medo, medo, medo. 

Tudo dele. Tudo meu. 

Recebi várias mensagens hj. Pessoas de longe, pessoas de perto. Todas falando o quanto sentem, o quanto lembraram de mim quando souberam dessa partida que feito faca corta a carne. Imaginavam a minha dor. 

Como se ele fosse da família. Como se eu fosse próxima dele. 

Como se partilhássemos a sessão de cinema das cinco.

E é tudo verdade. 

É desse tanto mesmo, ele pra mim.

É desse tanto que dói essa dor. 

Um oráculo, um mestre, um companheiro. Um irmão mais velho. Um pai. Uma referência. Tudo isso misturado. 

Sem nunca termos trocado um cumprimento. 

Lembro de uma Rafaela adolescente em Fortaleza que passou num bar lotado e viu um bigodudo cabisbaixo tomando uma dose e dedilhando sozinho um violão. Ele parecia concentrado e triste. E parecia lacrimejar sua dor com os dedos na viola. Eu era tão jovem, mas pensei isso na hora. E não quis importuna-lo. Não o faria hj Tb, mesmo imaginando que nunca mais poderia ter essa grandeza de encontro.

Um dia ele resolveu sumir. Absolutamente esperado. É ouvir as músicas do Belqui e supor que isso poderia acontecer.

E eu queria uma conta bancária para poder enviar mensalmente para ele uma ajuda. Para que ele se mantivesse sumido, por todxs nós que estamos tb muito cansados do peso de nossas cabeças. Nada poderia pagar o impagável, o tanto que esse homem fez por mim com sua arte, com seu legado de beleza, de sensibilidade.

Compôs muito. Vastamente. Uma máquina, ma-quina, máquina, ma-quina, máquina, ma-quina…

Compôs fundo. Tragicamente, no sentido foucaultiano. A palo seco, no sentido Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes.

Poderia ser parente, pelo Fontenelle. Ele é Antônio, mais uma inspiração para esse nome que tanto amo.

Ele surgiu para nos mostrar um tanto que nem todo mundo vê.

Belchior não é pra qualquer pessoa. As minhas prediletas, não à toa, o entendem (e o amam) profundamente. 

Ele sumiu para nos provar. Ele viveu até seu último dia a sua obra. A alucinação de suportar o dia a dia. A dor de viver com os pés cheios de poeira. Cansado, muito cansado do peso da sua cabeça.

Vai, pessoa latino americana. E fica, poeta dos selvagens. 

Que tua obra nos ajude a nos entender, estrangeiros que somos de nós mesmos. Essa divina comédia humana. 

Ouviremos mais, tudo outra vez.

Que nos ajude a dar fim ao termo saudade. 

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