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Saber ganhar, saber perder, saber viver: sobre o ódio que move quem deveria defender a vida

Todo-seu-odioAcompanhei atentamente o processo de eleição da faculdade onde me formei e me pós-graduei, a FCM-UPE. Tenho afeição por processos eleitorais, claras tentativas de exercitarmos a nossa democracia, ainda vítima de tantas ameaças. Somos todos e todas presas fáceis dos discursos fascistas que pairam em todos os lugares e situações, especialmente nos dias de hoje, onde as tais “indignações” e temperaturas aumentam.

 

Em ambientes escolares isso é muito preocupante. Ficamos a mercê de formarmos Frankensteins, mistos de criticidade às avessas, pseudo-consciência social, revolta e autoritarismo. Porém assusto-me ainda mais é com a onda de ódio que persiste no discurso médico. Na escola médica! O ressentimento com as idéias de esquerda, com as pessoas de esquerda. Com o livre posicionamento político, que deveria ser salutar, sobretudo numa Universidade. Impressiona-me o apontar de dedos, a forma no trato com quem tem reputação, não baseada em sobrenomes ou privilégios elitistas, mas em trabalho, militância e história. Um espumar de raiva que cega, julga, xinga, manipula. Vira a cara. Que atrapalha qualquer processo cognitivo de se exercer o mínimo de civilidade republicana.

 

Acompanho o trabalho de professora Bernadete Antunes e do Departamento de Medicina Social da UPE há muitos anos. Minha graduação e pós graduação em muito se acrescentou por conta da existência, história e trabalho desses educadores e educadoras. Vejo com clareza o valor institucional desse grupo e a potência que emprestam dentro e fora da escola. Sua contribuição para a cidade, o estado e o país. Tenho profundo respeito e admiração pelos professores do DMS-FCM-UPE e por alguns outr@s professor@s da FCM-UPE, guerreir@s incansáveis que seguem na difícil missão que é manter com compromisso uma escola médica estadual de pé. Especialmente em um estado como Pernambuco, com sucessivas gestões que deliberadamente viram às costas para essa importante instituição.

 

 

Colocar na lata do lixo todo o acúmulo técnico e histórico em educação médica alcançado nas últimas décadas pela FCM-UPE é injusto e danoso. É grave, é feio, é propositadamente parcial. Não combina com um ambiente que se diz universitário. Não demonstra cuidado com o prosperar institucional, pelo contrário, só colabora para sua destruição. E ainda mais grave, não parece ocorrer entre médic@s, profissionais de saúde que juraram respeitar e defender a vida!

 

O debate que desmerece as idéias e se baseia em preconceitos e ofensas pessoais é, além de lamentável, patético. Discutir, em plena escola médica, quem tem caráter ou não, quem “é viado, ou não’, comemorar aposentadorias, desejar o malgrado, o adoecer, a morte de alguém é triste de se testemunhar. Não acrescenta nada pedagogicamente. Nem humanamente. Pelo contrário, repito. É a reprodução de toda a desgraça ética e social que vivemos nessa atual forma violenta de nos relacionarmos.

 

O termo fascismo é derivado da palavra em latim fasces um feixe de varas amarradas em volta de um machado. O fasces foi um símbolo do poder conferido aos magistrados na República Romana de flagelar e decapitar cidadãos ditos “desobedientes”. Mussolini e tantas outras pessoas/momentos da história o utilizaram como símbolo partidário. Parte-se da idéia de que a “união faz a força”: uma única haste é facilmente quebrada, enquanto o feixe é difícil de quebrar.

 

Em nome dessa tal união difícil de se quebrar, qualquer categoria pode e deve se unir…não coloco isso em xeque. Proponho serena e reflexivamente algumas outras perguntas: nos uniremos para que? Qual o propósito? O que nos move? O que deveria nos mover? Queremos hastes para machados? Machados para ferir? Ferir quem? Ferir o que? Ferir por que? Estamos realmente vendo o que escolhemos ferir? Será que por um acaso estamos pelo menos nos enxergando?

 

Em uma semana difícil para @s médic@s pernambucan@s vimos até onde esse embate de medicina e poder pode chegar. Assistimos atônitos e impotentes a um possível desfecho sanguinário entre dois colegas médicos. O que mais precisará acontecer para que reflitamos? Quantos mais precisarão ser desrespeitados, xingados, mortos?

 

Essa poeira de ódio e rancor entontece. Adoece. Tomara que possamos, um dia, acordar.

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Um comentário em “Saber ganhar, saber perder, saber viver: sobre o ódio que move quem deveria defender a vida

  1. Excelente síntese do que é a vida médica em Recife !
    Também fui da UPE e trabalho em 3 hospitais em Recife em se perpetuam estes mesmos discursos , lamentável … Tenho fé que as novas gerações mudem e aprendam a valorizar a liberdade de expressão e o ser humano integral ! Boa caminhada !!!

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