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Sobre Cais e Caos: o caso-Estelita ou Sobre os porquês de defender armazéns velhos

ocupe estelita

Cais Estelita. Quem vive/mora/passa em Recife certamente já conhece a paisagem a que me refiro: a poética trajetória entre o Cabanga e o Bairro de São José, ostentando a Bacia do Pina e as vistas de Brasília Teimosa, do mar e da Zona Sul da cidade. Como se não bastasse, é um cais, arremate final de lírica.

 

Eu, pernambucana radicada há quase 15 anos, lembro-me como se fosse hoje da primeira vez, ainda há mais tempo, que passei por esse lugar. Lembro do impacto daquele visual na minha retina. “Essa cidade é mesmo muito especial”, pensei.

 

Ora, os antigos armazéns que hospedaram outrora toneladas de açúcar (não tão doces, mas históricas) poderiam hoje abrigar, além dos tantos significados do passado, uma nova possibilidade de arte, cultura, esporte, lazer e entretenimento para a cidade. Um espaço de encontro real. Entre pessoas. Entre todas as pessoas e a cidade. Sem vitrines e ar condicionado, para variar. Para quebrar a rotina estafante de pseudo-diversão careta das cidades monótonas. Cidades cada vez mais pasteurizadas com suas marcas, cores e sabores homogêneos. Cidades sem identidade. Sem cheiros e visuais próprios.

 

Recife nem precisava ser assim. Tão charmosa que já foi. Tão Bar Savoy, tão Califórnia, tão Caiçara. Tão Soparia. Tão Chico Sciense. Tão Manguetown. Recife é apaixonante pelo que possui de DIFERENTE. Sua autenticidade. O igual é igual, é “com certeza”, não salta aos olhos.

 

Poesias à parte, os olhos do capital percebem as coisas de forma um pouco mais gelada, eu diria: são 100 metros quadrados de “oportunidade imobiliária” (lucro e mais-valia, diria um velho barbudo chamado Marx) . A proposta do Consórcio “Novo” Recife (aspas minhas, nome deles) inclui um complexo empresarial, residencial, comercial e hoteleiro que cobre toda a área com mais de dez torres construídas. Isso, TORRES, porque são altas, arranha-céus. Arranha-almas. Um tapa-paisagem cafona que cobre a cidade dela própria. Um tapa na cara. Uma companhia pétrea e incômoda para as também incômodas torres gêmeas, início nefasto desse projeto infame. O público-alvo é o de sempre. A mesma gente privilegiada de mais de quinhentos anos de Brasil.

 

O acordo era certo. O destino, selado. Mas a história já teria seu fim, não fosse um detalhe: há pessoas aqui. Há gente atenta, pulsante. Há quem ande de madrugada e estranhe. E avise. Há corpos vibráteis que não permitem tantos desmandos. Batem no portão do mundo. Falam. Gritam. Ousam. Digitam. Organizam. Ocupam.

 

Essa gente quer uma cidade de verdade. De encontros. De calor. De todos e todas. Para todos e todas. Querem o frescor da brisa do Pina. Querem o cheiro sui generis. Querem os bancos na beira da maré para os beijos. Para as fotos. Para o pôr do sol. Para as bicicletas. Para os pensamentos. Para os poemas. Essa gente deseja uma cidade. Essa cidade é feita por gente que deseja.

 

Ítalo Calvino e suas Cidades Invisíveis descreve, dentre tantos lugares, um que chama a atenção. Em Cloé, “cidade grande, as pessoas que passam pelas ruas não se reconhecem. Quando se veem, imaginam mil coisas a respeito umas das outras, os encontros que poderiam ocorrer entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas ninguém se cumprimenta, os olhares se cruzam por um segundo e depois se desviam, procuram outros olhares, não se fixam.”

 

Que Recife nunca seja Cloé. E comecemos por Estelita. Evoé!  #ocupeestelita #resisteestelita

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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4 comentários em “Sobre Cais e Caos: o caso-Estelita ou Sobre os porquês de defender armazéns velhos

  1. Ótimo texto sobre o que está ocorrendo no Cais Estelita. Muitas pessoas infelizmente, por ignorarem o óbvio ou por insensibilidade, se perguntam: – Por que tanto barulho por conta de uns armazéns velhos?- Ouvi isso. Porém estão cegas porque já foram podadas pelo sistema do capital. Acham melhor o aparente ” desenvolvimento” que aparentam os altos blocos de concreto… foram habilmente adestradas para não criticarem, para não enxergarem além… ótimo texto ruiva!

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