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Bellas Maias do mundo: dancemos unidas!

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Bella, querida,

Escrevo-te agora no calor do momento. Escrever-te agora é como te dar um abraço. Daqueles apertados, demorados. É uma transmissão energética da certeza de que, sim, vai passar. As coisas ruins e boas desse momento vão passar e essa talvez seja das principais aprendizagens de hoje. Dessas tantas coisas que você me ensina.

Conheci Bella Maia de uma forma bem sui generis. Na verdade, não tão diferente para os dias digitais e líquidos de hoje. Conheci a bela Bella pelo facebook. Adicionei essa moça pela quantidade de amigos em comum que tínhamos e pelas suas ponderações sobre o mundo. Sua escrita me chamou atenção. Como podia uma bailarina ser tão “opiniosa”, aos melhores moldes das falas sábias de mulheres sertanejas? Livre de corpo e de espírito? De onde ela tirava falas tão profundas, tão cheias de cuidado de si, do mundo? E eram falas que falavam com muitas pessoas. E eram tantas curtidas e compartilhadas que infestavam minha timeline, que imaginava que essa moça estava a bater a porta da minha vida. E estava.

Ao contrário do que muitos pensam, não somos tão próximas. Pelo menos na vida óbvia, não. Vimo-nos pessoalmente somente meses depois. Não estudamos juntas. Não somos melhores amigas. Não moramos na mesma rua. Não temos parentes em comum. Não frequentamos uma a casa da outra. Na verdade nem conseguimos nos encontrar ultimamente. Eu não consegui te entregar teu presente de casamento! Estive ausente dos dois principais eventos de sua vida no ano passado, não por não ter sido gentilmente convidada, ou por não ter querido tanto estar perto, mas porque a vida às vezes nos convida a distanciamentos inevitáveis…

Nossa proximidade é de uma outra ordem. Funciona de uma maneira inexplicável . Imponderável. Intolerável, para alguns. O estar no mundo dessa moça me encanta profundamente. E quem já a viu atuando no mundo da dança, seja dirigindo, seja ensinando, seja dançando sabe bem do que falo. Uma Pina Bausch pernambucana, no melhor dos sentidos. Como pode ter incorporado, tão cedo, tantos elementos de filosofia, de saúde mental na sua dança? Sem ler uma linha de Foucault? De Guatari? De Suely Rolnik? De Deleuzes? Como pode tocar tão nevralgicamente em nós? Bella é impressionantemente terapêutica!

Seu grito de liberdade, de justiça, de feminino, de feminismo transborda sobre seus poros e sua arte de uma forma muito particular. É de uma luz, de uma doçura, de uma força emocionantes. Eu nunca tinha visto nada parecido. Sem cálculo, sem controle. Ela É, aos moldes bioenergéticos. E SER dessa forma apaixona e assusta o mundo. “Bella é polêmica”, corre na cidade. E uma frase me corrói o pensamento há semanas: “um homem livre ninguém entende; uma mulher livre ninguém aceita.”

Tive o privilégio de conversar com ela anteriormente sobre seu desejo de participar do BBB. Achei uma sandice e disparei de pronto. E ela tentava me explicar pedagógica e calmamente que esse era um caminho necessário para a sua carreira. E vi nos seus olhos que não era mais uma questão de concordar ou discordar. Isso já estava decidido e algum dia iria acontecer. Porque os seus desejos tinham essa ordem de grandeza e de força. E nada do que eu tentasse transmitir dos meus medos e preocupações sobre a questão surtiria qualquer efeito. Ela tem essa mania de ter coragem para tudo. Porque sua vida é um livro assustadoramente aberto. E ela é do mundo.  Sua casa é o mundo.

E eis que numa segunda feira dia 6 de janeiro, dia em que enfim marcamos de finalmente tomarmos o café que nos devíamos há meses, ela não só não foi, como sumiu, não mais atendendo aos meus telefonemas. Vi de relance na TV, horas depois, que haviam escolhido os participantes do programa e na hora liguei os fatos. Vai ver ela entrou, pensei. Dito e feito, a notícia já bombava nas redes sociais.

Daí em diante me conformei em acompanhar tudo o que se publicava sobre o tal programa. E de pronto, declarei o meu apoio a você. E fui duramente criticada por muita gente. Recebi mensagens, comentários nas redes sociais, puxada de orelha em bate-papo, whatsapp de gente de longe e de perto criticando (e se surpreendendo) com esse meu apoio. Cobrando-me coerência militante. Como uma feminista, uma professora universitária estava apoiando aquele circo? E quem era aquela mulher? Porque se ela “pensasse”, “prestasse” não estaria nesse programa! “Bonita desse jeito, deve ser só casca”. “Deve ser uma fútil qualquer, atrás de dinheiro, como todas as outras”.

E de repente me vi amarrada em praça pública com você, ouvindo o que há de pior da misoginia e preconceitos à moda brasileira. De algumas pessoas que inclusive eu nem esperava. Éramos as bruxas da Idade Média a ponto de sermos queimadas por tamanha subversão. Genis do novo milênio, que nesse mundo binário de pretos e brancos, uma escolha exclui simplória e superficialmente a outra. Não há cinzas. Nem vermelhos, nem rosas. E o lilás, só se usa com permissão.

E sabe o que é melhor? Eu não titubeei nem um segundo! Tão certa que sou de quem é você. E o que era você ali. Da sua luz que destoava daquela bobagem toda. Mas era você, sua arte, seus sonhos que estavam em jogo, naquele jogo. Que virou o jogo de tod@s nós que gostamos de você.

E me vi repercutindo suas informações nas redes, postando sobre você. VOTANDO, morrendo de rir de mim. Porque amar é mesmo ridículo, já diria Pessoa. Mas me senti ridiculamente feliz por alimentar o sonho de uma amiga. De fortalecer sua autonomia, porque autonomia é apoiar e respeitar o caminho do outro, mesmo não entendendo direito esse caminho. Não deveria nos importar o que achamos do caminho do outro, mas o que o próprio outro faz para achar o seu caminho.

E o que eu mais temia, aconteceu: uma mulher nordestina, autônoma, dona de si, bem resolvida no corpo, no afeto, na cuca não emplaca por muito tempo na grande mídia. Não tem mercado para um reality show. Ela questiona demais, fala demais, “irrita” demais.  Não há porque dar a ela muita visibilidade. Qualquer semelhança com a realidade atual da mulher brasileira NÃO É mera coincidência.

E nesse sentido, minha querida, só me resta dizer: orgulho de você. Dos caminhos que você trilha. Da verdade que você tem. Que você é. Da força de sua natureza que não te abala. Que não te destrói. E não há votação, ibope ou opinião alheia que te macule a alma. Que nos induza a te desconhecer. Porque tudo teu é tu inteira, cada gota de ti transmite teu todo. “Eu acho que a gente tem que ser fiel ao que acredita”. Tão….você! E é assim que deve ser.

Bella, aprendi a dançar com você. Sem nenhuma aula formal, de te assistir, de conviver contigo, eu entendi. Eu fecho os olhos, olho para dentro, sinto a música e danço para mim. Sem me importar com mais nada. Sem medidas, sem consequências, sem temores. Sem simetrias de controle. Com todas as aproximações metafóricas com a vida que esse gesto pode proporcionar! E não há palavras que eu diga que mensurem minha gratidão. Você me libertou. Ainda mais. A mim e a tantas pessoas. E não há nada mais revolucionário e pertinente do que nos libertarmos de nossas próprias amarras.

E termino com as sábias palavras do poeta Adal Hernández, que já te dediquei dia desses:

 “Una mujer revolucionaria

se indigna con más frecuencia,

concibe preguntas todos los días,

grita más fuerte,

llora más alto,

desea con más ansias,

quiere más resuelta,

siente más profundo.”

 

Força, amor, saúde, luz e fé.

Rafa.

PS: Aguardando a nova data do nosso café. 😉

 

 

 

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