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Da paixão pela música


A música começou. Na verdade, já estava na cabeça dela antes mesmo de surgir no ar. Ela não acreditava que esse momento iria chegar. Que poderia tocá-lo impunemente, sem desculpas esfarrapadas. Com sorte sentiria até seu cheiro. O gosto do seu suor. A taquicardia dele. Mas essas eram apenas apostas, desejos que ela guardava lá dentro de si, pra que não virassem nem mesmo sussurros inconscientes. Tinha muito medo que seu corpo falasse. E ele sempre falava.
Colocou o seu melhor vestido. Mulher que é mulher só vai à dança com saia bem rodada, já diria sua mãe. Gostaria de algo mais colorido, porque nem todas as cores do mundo seriam suficientes para expressar tamanha felicidade. Olhou-se no espelho, pintou-se como quem vai à caça. Perfumou-se como quem precisa ser caçada. Ela hoje iria provar seu homem.
Por hora estava tudo sob controle. Ela chegou como quem não chega, mas João a fitava vorazmente porque ela estava ali. O exercício de Lia era o de não se atirar nos braços dele, questão tão vital quanto respirar. Seu timbre de voz e doçura eram irresistíveis, mas ela precisava endurecer.
E formavam-se os pares. Fotos pra registrar, risadas pra felicitar. Pareciam todos felizes, mas Lia estava eufórica. Explodindo. Implodindo. O gosto da cerveja lhe refrescava o calor e o furor. A música parecia querer tomar conta de seu corpo, mas Lia tentava manter os pés no chão. Tinha medo de desgrudar da terra e ela toda ser magneticamente atraída para os braços de João. Não podia se arriscar.
Ele puxou uma amiga para dançar. Lia de pronto entendeu a mensagem e também arrumou um par. Tinha a leve sensação de que o acompanhava com o olhar mesmo quando estava de costas. Dessas certezas insanas que se carrega quando se está embevecida.
A música seguia a noite. E era tão bela a música. E a mais incrível canção ainda estava para ser tocada. Tamanha beleza que nem foi ouvida pelos dois. Porque de repente tudo silenciou. Eles estavam enfim, juntos. Os corpos nem sentiram o impacto do bote. Nem se aperceberam de como se rondavam, um toca do outro. O roçar das peles era quase elétrico. E eles se passeavam como pedras a tentar fogo. Talvez alguém tenha notado, mas agora pouco importava. O mesmo impulso que expulsava, abraçava. As músicas insistiam em acabar, como que jogando na cara o tempo, cruel e inexorável. Era importante trocar de par. A festa precisava de ritmo e a sensatez, também. O sanfonar das músicas oscilava entre eternas, longe dele, e fugazes, perto.
E era tão forte pra Lia ouvir João. Ele cochichava seu nome, em muitas formas, lábios no ouvido dela:
– Nossa, Lia.
Lia conseguia sentir a umidade daquela boca pelo simples roçar na sua orelha. E a taquicardia. E o cheiro. E o gosto de seu suor. Era tudo verdade. A verdade que ela nem pensava que existia. O corpo de Lia falou. E o de João respondeu.
Findada a festa, era hora de ir para o quarto. Lia acreditava que seu palpitar podia ser ouvido a metros de distância. Ninguém podia saber. Só a lua via tudo. Entraram trôpegos e fecharam a porta. Não sabiam ao certo se deveriam. Tinham certeza que queriam. Lia ainda relutou, mão na porta, outra na cabeça. Ele parecia desesperar:
-Você não quer?
– O que você acha?
E enfim libertaram suas naturezas. Pareciam ter se encontrado depois de uma longa caminhada.

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2 comentários em “Da paixão pela música

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