Geral

Dos invernos

 

Ela olhou para o céu. Achou que ia chover. Deu de ombros e seguiu sua rota. Estava apressada demais para mudar de planos.
A essa altura ela já tinha entendido que estava triste. Não porque lhe caiam lágrimas ou porque algo de desastroso lhe tinha acontecido. Porque aquele conhecido solavanco de alma tinha lhe chacoalhado. Mas ela também sabia que essas coisas lhe chegavam e partiam de uma forma estranha e que de alguma maneira ela precisaria seguir caminho. Mancando ou puxando de uma perna, pés descalços, talvez, mas seguindo. Estrada deveras sinuosa, mas a sua estrada.
Ela não conta a ninguém que isso acontece. Que a estrada é sinuosa, que o caminho é duro. Prefere assim, que achem que lhe é fácil viver. Que o automatismo dos passos lhe atinge e que tudo é fluido e terno. Um limão provado sem caretas, um amargo que lhe desce doce na garganta. Até que não se creia mais assim.
E eis que nessa estrada às vezes chove. Menos do que ela queria. Chega a fechar os olhos, apertar forte as pálpebras para que os pingos se prolonguem. E lhe molhem mais do que assanhem. E maltratem menos que refresquem. Uma chuva pode mais do que uma nuvem. Pois que a nuvem passa rápido e não passa a sede. Porque seu corpo queria se esquentar de novo e seus cabelos queriam o molhar de uma tempestade. A nuvem, quando muito, dura uma noite. Molha o chão, levanta o cheiro da terra. E vai embora, levando todo o seu inverno.

Imagem: Robert Banksy. Graffiti (Girl with umbrella), 2009

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